Temer, a troca de meia dúzia por zero

 Temer, a troca de meia dúzia por zero

Miriam Belchior critica mudanças na Caixa, que agora é para ricos

miriamA ex-ministra do Planejamento, Miriam Belchior, que também foi presidenta da Caixa Econômica Federal durante a gestão Dilma Rousseff (PT), criticou as mudanças no banco público anunciadas  pelo interino Michel Temer (PMDB-SP). A Caixa agora passará a fazer financiamento de imóveis de até R$ 3 milhões. Segundo Miriam, enquanto essa faixa com mais renda é privilegiada por Temer, a população mais carente fica sem alternativas. “É nenhuma preocupação com quem mais precisa”, diz.

 “Ao mesmo tempo em que puxa para R$ 3 milhões, congela este ano contratações para a Faixa 1 do programa Minha Casa, Minha Vida – famílias com renda de até R$ 1,8 mil mensais. Acho que essa é a grande questão: o recurso sendo usado para imóveis de valor muito mais alto, enquanto que a população que mais precisa fica sem alternativa”, disse em entrevista ao jornalista Paulo Henrique Amorim, do Conversa Afiada.

Confira abaixo a íntegra:

A propósito de uma decisão do governo interino de a Caixa Econômica Federal passar a financiar imóveis de até R$ 3 milhões – o valor máximo, hoje, é de R$ 1,5 milhão -, o Conversa Afiada entrevistou a ministra Miriam Belchior, que também foi presidenta da Caixa.

PHA: Ministra, como a senhora explica essa decisão?
Miriam Belchior: Acho que quem tem que explicar é o governo interino. Tenho só a lamentar que um banco público como a Caixa mude a sua orientação e passe a fazer financiamento de um montante tão alto. Imagine o que é um imóvel de R$ 3 milhões, que se localiza, por exemplo, numa cidade como São Paulo. Quantos quartos ou suítes, quantas vagas de garagem. E a gente sabe que 80% do déficit habitacional do país fica na faixa de até três salários mínimos. Ao mesmo tempo em que puxa para R$ 3 milhões, congela este ano contratações para a Faixa 1 do programa Minha Casa, Minha Vida – famílias com renda de até R$ 1,8 mil mensais. Acho que essa é a grande questão: o recurso sendo usado para imóveis de valor muito mais alto, enquanto que a população que mais precisa fica sem alternativa.

PHA: A senhora, que conhece a contabilidade da Caixa Econômica Federal, como explicaria isso diante dos recursos disponíveis da Caixa hoje?
Miriam: Olha, eu não vi com detalhes a decisão, mas na verdade a Caixa, aparentemente, está contratando abaixo do que está orçado para o ano. Ela tem os recursos e não consegue contratar tudo o que está disponível. Por isso está ampliando o teto do valor do imóvel. Considero que isso não é o mais adequado para um banco público.

PHA: Seria essa – especulação minha – uma medida para atrair interesses da indústria da construção civil?
Miriam: É, pode ser que seja, não sei dizer o que é que está movendo essa decisão. Acho que o que é muito mais importante, e que mostra bem o que é o governo interino, é nenhuma preocupação com quem mais precisa. Então, aumenta para R$ 3 milhões, garante o financiamento para quem tem renda muito alta e congela todas as contratações para as famílias de baixa renda.

PHA: Qual seria a faixa do mercado que poderia atender o consumidor de um imóvel de R$ 3 milhões?
Miriam: Certamente insignificante, porque considerando a renda da população brasileira. Quem tem condição de comprar um imóvel de R$ 3 milhões, mesmo financiando, precisa de uma renda muito alta. Portanto, é uma minoria da população brasileira.

PHA: Última pergunta, ministra: quando eles deixam de financiar essa faixa de 0 a 3 salários mínimos, quantas moradias, aproximadamente, deixam de ser construídas?
Miriam: Olha, nós tínhamos programado, quando a Presidenta lançou o programa de dois milhões de moradias do Minha Casa, cerca de 40% eram até essa renda. Então, de 2 milhões, 800 mil, pelo menos, 200 mil por ano – quatro anos. É um número grande – 200 mil moradias, ano – e onde está concentrado o déficit. Como eu disse, 80% do déficit habitacional no país está em até três salários mínimos.

Da redação, com Conversa Afiada – Título: Amorim Sangue Novo