Leandro Karnal – O outro lado da história

Diversos jornalistas críticos e leigos têm feito comentários sobre o fato de o historiador Leandro Karnal haver jantado com o juiz Moro. Por um lado vários elogiaram seu comportamento e suas razões apresentadas à imprensa, por isto mesmo estou trazendo duas (veja a primeira) das melhores matérias encontradas e com teores diferentes para que os leitores tirarem suas próprias conclusões.

“Professor, há momentos em que precisamos escolher o lado certo da História

Comentário ao post “O caso Karnal-Moro, os intelectuais e as tentações midiáticas, por Luís Nassif

Caro Leandro Karnal,

Como seu (ainda) admirador, não poderia deixar de criticar, não somente o encontro com Moro, como as justificativas que você apresenta supostamente para “quem gosta de você”.

Em primeiro lugar, deixo claro que considero ser absolutamente um direito de qualquer pessoa tecer amizades com quem quer que seja, assim como expor as opiniões que possui. Claro que nossas amizades e nossas opiniões são capazes de provocar reflexos na opinião do outro e, na verdade, apreciamos as pessoas, e delas nos tornamos amigos, muito em função de nossas posturas frente à realidade, assim como em decorrência das pessoas que nos cercam. Somos como nos apresentamos. Para um Zé Ninguém, a repercussão dos posicionamentos será quase nenhuma e poucos se importarão sequer em criticar. Apenas passarão a manter uma distância segura. Para os que vivem o dilema da fama, para as figuras públicas, a conta é muito maior. Se a opinião de um famoso possui uma incrível densidade e poder de persuasão coletiva, por isso mesmo exigindo responsabilidade ética para sua emissão, que dizer da palavra de um intelectual?

O intelectual, ao menos em princípio, possui um aparato cognitivo, capaz de produção de análise sobre a realidade, muito acima da média dos seres humanos, por assim dizer, “comuns”. Não precisa ser um historiador, no entanto, para compreender que o Brasil vive uma fase atípica em sua política e democracia. A democracia, sob esdrúxulas e espúrias motivações, foi estuprada pelos senhores do poder (e não estou falando dos políticos profissionais). A percepção de que o voto seria insuficiente para retornar à agenda político-econômica anterior precipitou o golpe pela via mdiático-jurídico-parlamentar. Criminalizaram, mais uma vez, as políticas voltadas para o andar de baixo, como antes já fizeram com Vargas ou com Jango.

Há momentos, Karnal, em que precisamos escolher o lado certo da História. O lado certo estava com os abolicionistas, não com os escravagistas. Estava com as sufragistas, não com o patriarcado que pretendia manter as mulheres sem poder decisório na sociedade. Com a resistência, não com os nazistas.

O estupro da democracia no Brasil, em larga medida, foi possibilitada pela ação do juiz Sérgio Moro, que você apelidou de “inteligente”. Não duvido dessa inteligência. Seria o mesmo que duvidar da inteligência de Heidegger. Todavia, não é possível fechar os olhos para o fato de que Heidegger abraçou o nazismo. Conversar com um racista inteligente é possível. Eu o faria. Richard Dawkins por diversas vezes conversou ou debateu com religiosos. Confraternizar, rir e chamar de amigo, contudo, coloca essa conversa em outra dimensão. A da pusilanimidade moral e intelectual ou simplesmente a adesão à vilania.

A “inteligência” de Sérgio Moro, que você saúda, é voltada para a corrupção da interpretação da lei; à deformação do processo penal, transformado em perseguição ao inimigo político; à seletividade dos vazamentos de atos processuais que, em tese, deveriam ser sigilosos; enfim, ao mais puro exemplo de como reproduzir o macartismo em terras tupiniquins.

Óbvio que somos livres, inclusive, se assim quisermos, para encetarmos amizade entre os porcos. Porém, e por favor, evite a dramatização barata. Você não está sendo perseguido ou patrulhado por quem “não gosta de você”. Pelo contrário, as manifestações são de admiradores seus, surpresos por sua inocência ou pela cara-lavada de vangloriar-se de amizade por alguém que, hoje, é visto por parcela substancial da sociedade brasileira como um inimigo da democracia, como um baluarte contra os avanços sociais e contra o combate à pobreza, como alguém que utiliza o aparato institucional para eliminar adversários políticos.

Talvez você não perceba nenhuma conexão entre a derrocada da economia brasileira (com todas as tragédias individuais que dela resulta) e os atos do Sr. Sérgio Moro e famigerada Lava Jato, mas parte significativa do povo assim entende o que está ocorrendo com o Brasil.

Sim, Karnal, estamos divididos, o ódio está presente. A responsabilidade maior, no entanto, repousa naqueles que resolveram que a democracia era um direito grande demais para os brasileiros e resolveram cassá-la. Compete a quem esbofeteou a face de 54 milhões de brasileiros pedir desculpas e recolocar as coisas no seu devido lugar. Quem foi esbofeteado está gritando, mas é o grito dos indignados.

No fim das contas, Karnal, o preço de singelas desculpas pode ser um preço módico a pagar. Uma convulsão social seria bem pior. Nesse momento, os brasileiros estão se alinhando: há o lado do “coxismo” – golpistas – e há o lado dos democratas. Sérgio Moro não é democrata. Ao se alinhar a ele, você passa a mensagem de que tampouco o é.

Não fique com raiva de quem o critica. Posicione-se, como você sempre faz. A resposta que você deu não é uma posição, é uma arrogância: você está dizendo que os adeptos do ódio te impediram de manifestar um posicionamento. Não é verdade. Foram os indignados que se manifestaram sobre a foto, não raivosos. O principal fomentador do ódio no país não criticou a foto, pois nela estava com você, sorridente, brindando com uma taça de vinho.

Pense nisso e, por favor, volte à sanidade.”

Postado por Márcio Valley no CGN – Título, subtítulo e imagem ilustrativa: Amorim Sangue Novo

Karnal se levanta e sepulta Moro: “eu paguei o vinho”

Tadeu Porto,  no O Cafezinho fala sobre a polêmica criada pelo fato de Leandro Karnal haver jantado como o juiz Moro

Posso tecer diversas críticas ao historiador Leandro Karnal, personagem da polêmica efêmera da segunda semana de Março, mas não posso deixar de reconhecer uma grande qualidade nele: a maneira de se expressar (tanto na fala, quanto na escrita).

Quem domina a linguagem tão bem como Leandro, obviamente, sabe muito bem as consequências de um conjunto de palavras bem agrupadas e posicionadas, afinal, uma vírgula pode mudar o entendimento dos leitores e leitoras de maneira a arruinar ou salvar todo um argumento.

Por exemplo, li agorinha a resposta que Karnal deu a famigerada foto como Moro e falo com tranquilidade que o professor ergueu um muro de concreto entre ele e o magistrado.

Sobre a resposta em si, já adianto que o historiador recuperou meu respeito (a minha curtida ainda não, pois vou fazer um charminho). Ele poderia ter exaltado Moro – tem a mídia tradicional para o acobertar caso escolhesse tamanha bobagem – mas não o fez e ainda reconheceu o erro admitindo, inclusive, a pitada de vaidade que o fez pagar pra ver a reação dos seus seguidores ao estar com alguém que, teoricamente, brilha mais que ele (isso é raro e, portanto, louvável).

Ademais, o melhor do conjunto da obra é que Karnal esculhambou Moro, e isso qualquer entendedor mediano – daqueles que letra é só letra do alfabeto romano – consegue enxergar.

Primeiro, pois o palestrante gastou um parágrafo inteiro para explicar que o “inteligente” da foto deletada era direcionado ao juiz Furlan, o que nos faz abstrair que Moro só apareceu no elogio por pura educação.

Em segundo lugar, pois se referiu a Moro como “personagem da história” se abstendo de qualquer juízo de valor sobre o magistrado (nem mesmo de combatente da corrupção). Karnal não quis mais se arriscar, assim  fica nítido que esse silêncio é a cara do consenso sobre o papel que o juiz do Paraná tem no neofascismo brasileiro.

Por último, e sim mais importante, bom mesmo foi o quase post script que Karnal lançou em seu post, praticamente deixando para o papel de fechar com chave de ouro uma frase que resume bem o que o palestrante quis deixar claro: “eu paguei o vinho”.

[Aqui eu chamo a atenção para algo que eu poderia ter escrito nos primeiros parágrafos, mas esqueci e estou mandando aqui mesmo por preguiça de rearranjar o meu texto. A explicação foi postada no fim da tarde, ou seja, Karnal teve muito tempo para pensar com carinho o tom da resposta que ia dar e os diabos que iria escolher para habitar nos detalhes textuais.]

Leandro não escreveu: “dividimos o vinho” ou “paguei o meu vinho”, ou mesmo deixou pra lá esse detalhe e encerrou o texto sem o “por fim”. Karnal quis deixar claro para os amigos e interessados (que aqui completo com amigas e interessadas, acho legal tentar abranger todos os gêneros na escrita) que ele “pagou o vinho”.

E o quê isso quer dizer?

Bom, na cultura ocidental, pão e vinho são símbolos majoritários de partilha. Portanto, Karnal simplesmente desenhou uma linha entre ele e Moro para não deixar dúvidas do seu distanciamento desse conservadorismo ultrapassado.

Eu até aceitaria o argumento de que Leandro quis simplesmente dizer que “pagou o vinho” porque é responsável pelas suas escolhas e que os pobres do Sérgio e Furlan não tem nada a ver com isso. Mas penso, honestamente, que isso não vem ao caso pois o professor gaúcho hora nenhuma em seu texto fez alguma defesa de Moro. Pelo contrário, o silêncio de Leandro sobre qualquer característica positiva do juiz significa, claramente, que esse o abandonou em praça pública, sem escudo algum, para que este continuasse a ser apedrejado pelos seguidores de sua página.

Confesso que minha decepção ainda continua, contudo ela ganhou certa armadura de alívio. Como esse texto de desculpas, para mim, Karnal se levantou, escolheu se equilibrar novamente na corda bamba da isenção, mas sinalizou que se cair novamente, dessa vez vai escapar do aconchego fascista que está esperando seu tombo.

Espero não estar errado, mas se eu estiver, sem problemas… Vou procurar amigos e amigas para dividir alguns vinhos comigo, assim afogo minhas mágoas e fica tudo de boa.

Por Tadeu Porto, diretor do Sindicato dos Petroleiros do Norte Fluminense no O Cafezinho

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Papo reto e afiado – 08/0217

Os desmandos em todos os poderes, o inconformismo dos maus perdedores e a má gestão da maioria dos governantes e seus ministros e secretários, está levando o Brasil ao caos político e social.

Imagem meramente ilustrativa

Simples assim, ou como disse o filósofo Leandro Karnal,
“O pais precisa de um Messias” (veja vídeo)