Por que os homens traem mulheres maravilhosas?

Por que os homens traem mulheres maravilhosas?

mulheres maravilhosasPor Fabio Hernandez no DCM

Às vezes acho que as revistas femininas vivem numa dimensão paralela. Outro dia, por exemplo. Eu estava navegando ao acaso, como um veleiro perdido na imensidão azul, quando vi na tela de meu laptop meia-boca um artigo da Cosmopolitan, a Cosmo, americana, a mãe de todas as revistas para a mulher supostamente moderna.

Era em cima da história do Tiger Woods, o sexualmente voraz jogador de golfe, como se viu, apesar da cara de santo, da expressão de quase bobo. Parecia um MP, Marido Perfeito. “É curioso”, gostava de dizer Tio Fabio, falecido homem sábio do interior, Deus o tenha. “Elas confiam nos homens com cara de bonzinho quando eles são, exatamente, os mais perigosos. Tudo neles é fajuto e hipócrita, e a expressão de santo mais que tudo.” Segundo Tio Fabio,  nem o Belzebu sabe o mal que se esconde no coração dos santinhos, tamanha a dissimulação cínica deles.

A Cosmo pareceu de fato espantada com a revelação de que Tiger Woods traiu sua mulher e não apenas uma só vez. Prevaricou um bocado.  A enganada é uma loira bonita, bem tratada e bem vestida, aquele tipo que nosso amigo Cafa definiria grosseiramente, numa palavra, olhos arregalados fixos no decote, como gostosa.  Veio daí a perplexidade da revista. Como se houvesse uma regra segundo a qual mulheres com determinadas medidas estariam imunes a ser passadas para trás. O título mostrava essa ingenuidade colossal.  Era assim, literalmente: “Por que os homens enganam as gostosas?”

Minha lista curta de respostas possíveis:

1) porque podem ser arrogantes devido à beleza;

2) porque podem ser, simplesmente, ruins de cama;

3) porque talvez não se empenhem o suficiente por achar que traços bonitos resolvem tudo;

4) porque podem ser egoístas e querer fazer apenas as coisas que as agradam, como se o homem fosse um escravo;

5) porque para não engordar comem muito pouco e, por isso, podem ficar com o hálito azedo.

Deu?

Um amigo meu fotógrafo brasileiro que vive na Argentina namorou, certa vez, uma atriz de novela de uma televisão que aparecia sempre na Holá!, a Caras deles.  Quando eu soube, perguntei a ele como era esse namoro. “Já dei bota”, ele me avisou. “Uma negação na cama.” Ele me contou que, por um momento, chegara a pensar que o problema estava nele, mas uma noite com outra mulher provou-lhe que não era assim. Ela era a questão.

Há um erro básico que as pessoas frequentemente cometem. Uma mulher sensual, por exemplo. Ela  não se define pelas curvas, mas, como diz a palavra, pela volúpia, pela intensidade dos seus sentidos. Pela maneira como ela gosta de tocar, sentir, cheirar o seu homem.

Essas, não digo que não sejam traídas, tão instável e cruel é o universo com suas tentações que chegam aos inocentes na alma como raio em céu azul. Mas é mais difícil. O homem pensa uma, duas, várias vezes antes de dar um passo que possa colocar em risco uma mulher que o trata na cama como ele merece. Na maior parte das vezes, demora tanto pensando que a tentação passa.

Eis a mulher de fato gostosa. Não se define pelos cabelos, não se define pelo decote, não se define pelos contornos, não se define pelo peso.

É uma questão de atitude. Isso a Cosmo deu a impressão de não saber no artigo tolo sobre a traição em série de Tiger Woods.

Sobre o Autor: 
O cubano Fabio Hernandez é, em sua autodefinição, um “escritor barato”.

Viver do trabalho é bom, mas morrer dele é um erro

Por Fabio Hernandez

Viver do trabalho é bomJardim de Luxemburgo, Paris: os franceses sabem viver

Recebo a visita de meu primo Juan Hernandez.

Publicitário. Não que seja preguiçoso, não é. Mas está longe também de ser um soldado da companhia que se voluntaria. Vamos colocar assim: profissionalmente, é um francês. Você pode varar Paris as 24 horas do dia que não vai encontrar ninguém de laptop trabalhando num café. Café e bar são para beber, conversar, flertar para o francês. O trabalho acaba às 5 e ponto. Revoir.
Juan tem o espírito profissional do francês mesmo tendo ascendência caribenha, como eu.

“Meu chefe é um maluco”, Juan me disse. Tratou antes de conversar de pegar uma Stella na geladeira. “Ele pensa que a vida é trabalhar, trabalhar e ainda trabalhar.”

“Quase todo chefe pensa o mesmo”, eu disse. “Ou não seria chefe.”

“Mas há chefes e há o meu chefe, Fabito.” Ele me chama de Fabito, não sei por quê. É a única pessoa que me chama assim. “Sabe o que ele me disse outro dia? Que se orgulha de não ter ido ao enterro do avô porque tinha que trabalhar.”

“Imagino que um dia ele vá ter vergonha disso, se não for um idiota completo”, eu disse. “Ou vai olhar para os netos e saber que eles não vão segurar a alça na última homenagem.”

Quem glamourizou no Brasil a idéia de prioridade absoluta para o trabalho foi o Grupo Garantia, que depois de vôos espetaculares quebrou no ramo financeiro e acabou se dando bem, com outro nome, no território rústico da indústria cervejeira. Era e é um conceito importado dos Estados Unidos. Visto o declínio americano, não deve funcionar tão bem assim esse modelo. Os banqueiros americanos estão atolados em dívidas e em antidepressivos.

Juan me olhou com ares visionários, depois de tomar um gole interminável de sua Stella.

“Ele não vai viver o bastante para ter netos”, disse.

É uma possibilidade real, refleti. Conheci muitos casos de pessoas que morreram de tanto trabalhar, e deixaram órfãos, viúvas e um dinheiro não aproveitado. Viver do trabalho é bom, mas morrer do trabalho é uma pena. Miro Juan a caminho da geladeira, para pegar mais uma Stella, e gosto de saber que ele não vai morrer de tanto trabalhar, com certeza.

O primeiro amor

O primeiro amor

Captura-de-Tela-2015-07-26-às-22.43.02Conversation dans un Parc, de Louis Léopold Boilly (detalhe)

Por Fabio Hernandez

Tio Fábio é um homem sábio do interior. Uma vez ele me viu aflito com uma pilha caótica de livros que eu tinha na cabeceira. Tantas coisas para ler, tão pouco tempo: esse o motivo da minha aflição, expliquei a Tio Fábio. Na próxima vez que o encontrei, ele me passou uma citação de Sêneca, o grande filósofo romano de quase 2000 anos atrás. Tenho-a até hoje. “Uma profusão de leituras sobrecarrega o espírito, mas não o ilustra. É melhor se aplicar num pequeno número de autores do que vagar no meio de muitos”. (

Adiante, conforme me contou Tio Fábio, Sêneca quase louvou o célebre incêndio da Biblioteca de Alexandria, considerado pela visão convencional como um dos maiores desastres culturais da humanidade. Sêneca qualificou a biblioteca queimada como um exemplo de “orgia de literatura”. Tio Fábio gosta de Sêneca porque admira gente que pensa diferente. Herdei essa admiração. Uma das razões pelas quais falo tanto de tio Fábio é que ele pensa diferente).

Agora confesso que esqueci por que falei em Sêneca e no esforço inútil despendido em leitures inúteis. Ah, lembrei. É que no esforço de seguir o romano genial eu passei a me concentrar em alguns autores, não numa infinidade. E tirei de minha vista a montanha de livros que me trazia tanta ansiedade. Entre as minhas poucas e constantes leituras estão dois escritores “espirituais”. Um deles é o monge católico Thomas Merton, já morto. O outro é o monge zen Thich Nhat Hanh, um vietnamita que ergueu uma comunidade budista num lugar retirado na França.

Citei ambos porque, em livros que escreveram, eles trataram de um assunto que é único, vital, indelevelmente marcante na vida de um homem: o primeiro amor. É quando descobrimos que não somos mais crianças. É quando descobrimos que existem outros prazeres além da bola de futebol e do videogame.

E é quando descobrimos também o quanto a alegria está conectada à tristeza. O quanto a euforia está próxima da angústia. Um telefone que toca com a voz de quem você deseja ouvir. E então é o êxtase. Um telefone que teima em ficar silencioso, cruelmente silencioso. E então é a agonia. Você é um antes do primeiro amor. E outro depois. Os beijos. O adeus.

(E então me ocorre aquela linda canção chamada Crying Game, que deu nome ao polêmico filme. “First there are kisses/Then there are sighs/And then before you know where you are/You’re saying goodbye”. O sentido é a fugacidade da paixão. A impermanência, como dizem os budistas. Quem sabe um dia o Mantraman me diga palavras de conforto em relação à revolta ingênua que sinto contra a impermanência).

Merton, em sua autobiografia, nota algo que eu nunca tinha pensado. Somos tão jovens, tão frágeis quando aparece pela primeira vez em nossa vida aquela onda avassaladora que é o primeiro amor. Tanto impacto e somos tão indefesos. Merton se apaixonou antes de virar monge.

Thich Nhat Hanh, num pequeno e belo livro chamado Cultivando a Mente de Amor, confessa a paixão que o tomou quando, jovem monge, conheceu uma monja. Ele diz que decidiu falar desse amor para ajudar outros monges que por acaso enfrentem a mesma situação.

Pelo lirismo inspirado, transcrevo um trecho em que Thich Nhat Hanh fala do objeto de seu amor: “O comportamento dela como monja era perfeito – a forma de se mover, de olhar, de falar. Ela era tranquila. Jamais dizia alguma coisa, a melhor que lhe perguntassem”. Mais adiante, ele compara seu amor a uma tempestade pela qual ela e ele tinham sido apanhados sem saber como. E também sem saber como escapar.

Num capítulo intitulado “A beleza da primavera”, Thich Nhat Hanh faz um convite ao leitor. “Por gentileza, pense no seu próprio primeiro amor”. Faça-o devagar, visualizando como aconteceu, em que lugar foi, o que lhe trouxe naquele momento. Relembre essa experiência e observe-a calma e profundamente, com compaixão e entendimento. Você descobrirá muitas coisas que não notou naquela ocasião”.

E então aceito o convite do monge zen. E penso nela. Nos olhos verdes. Na pele suave como um pêssego. No sorriso meigo e constante. No telefone que tocou e trazia a voz dela para dentro de minha casa e de meu coração. No vestido azul e amarelo que usou quando saímos pela primeira vez.

No primeiro beijo.

E então penso na tempestade (para usar a expressão de Thich Nhat Hanh) que se seguiu. Deus, que tempestade. Mas quanta poesia, quanto calor, quanto ensinamento se escondia naquela torrente de água ao mesmo tempo tão sofrida e tão gloriosa.

Sobre o Autor:
Fabio Hernandez é, em sua autodefinição, um “escritor barato”.