Estou ficando velho, estou envelhecido

Estou ficando velho, estou envelhecido

amorim-lendoNão gosto dos sem terra nem dos sem teto. Causa-me asco ver pessoas invadindo fazendas, parando estradas, ocupando linhas de trens, quebrando repartições públicas, imóveis alheios e até destinados a outros “sem”

Estou velho

Não apoio o desleixo e o ostracismo, vejo com tristeza o desrespeito dos jovens para com a sociedade e até com os próprios pais. Sou do tempo em que o poeta dizia que “o trabalho enobrece e dignifica o homem”.

Estou um pouco mais velho

Aos poucos perco o tesão ao ver mulheres mais “peladas” que vestidas balançando o popozão siliconizado no funk. Sou do tempo e ainda prefiro dançar agarradinho, com respeito e com decência, depois um drink no bar, um capuccino na leiteria, uma cantada, o charminho e enfim uma cama

Estou muito velho

Não quero ouvir mais noticias de pessoas morrendo de dengue, de zika ou de chikungunya e, por mais que eu cobre os governantes e alerte as pessoas vejo o descaso e ás vezes até penso em tapar os ouvidos e fechar os olhos, mas o que vejo são mortes e doentes nos leitos e corredores de hospitais, enquanto médicos não comparecem aos seus locais de trabalho. Não quero saber de pessoas morrendo de câncer e governantes desprezando e não aceitando remédios de médicos que estão oferecendo um pouco de esperança aos enfermos e de maneira graciosa.

Não acredito em políticos, em Cunha’s; Temer’s; Dilma’s; Bolsonaro’s ou FHC’s. Em candidatos que prometem e não cumprem, naqueles que tiram dinheiro do povo, sem limites, sem respeito, enquanto o povo sofre diminuindo até a alimentação, crianças ficando raquíticas, idosos morrendo nas filas de um SUS enfermo e decadente.Não acredito nos que dizem que querem o bem dos inimigos e dos que dizem dar a outra face, nos tapinhas nas costas e nos beijinhos, mais no ar que no rosto

Estou cansado de quererem me culpar por ser aposentado e ainda trabalhar, pois se trabalho, mesmo sem remuneração é que sinto prazer no que faço, preguiça não faz parte de minha mente e assim quero permanecer pelo restante de vida que tenho, não estou tirando empregos pois emprego tem pra todos, basta empenho, basta dedicação. Sou do tempo em que se saia com o Estadão na mão, parando em portas de fábrica, perguntando aqui e ali se alguém sabia de alguma vaga e qualquer uma servia, hoje querem escolher mesmo sem aptidão.

Estou envelhecido

Muitas ou poucas coisas me comovem

Estou bem envelhecido, mas lúcido o suficiente para lembrar os versos de Raul Seixas:
“Eu que não me sento
No trono de um apartamento
Com a boca escancarada cheia de dentes
Esperando a morte chegar”