Do Movimento dos Sem Universidade direto para a graduação

Jaqueline

Por Sarah Fernandes, da Rede Brasil Atual
Negra, do extremo leste de São Paulo, ex-aluna de escola pública. São algumas das características de Jaqueline Ferreira da Costa, de 18 anos. Ela, no entanto, tem preferido se identificar de outra maneira desde janeiro deste ano: estudante de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Depois de muita dedicação, a jovem que trabalhava nas ruas da cidade segurando placas de anúncios de apartamentos conquistou uma vaga em uma das universidades mais concorridas do país.

“Eu achava que nunca conseguiria entrar em uma federal, que não tinha nível para isso. Eu sabia que a minha escola não me preparava o suficiente. Foi uma alegria muito grande”, conta Jaqueline. Durante o ano passado, enquanto cursava o terceiro ano do ensino médio à noite, ela fez cursinho pelo Movimento dos Sem Universidade (MSU), que oferece pelo menos 1.200 vagas em diversos bairros da periferia de São Paulo. As aulas e o material didático são gratuitos. As inscrições estão abertas, pelo site www.msu.org.br. “Eu não tinha nem computador em casa, fui ver o resultado em um telecentro. Eu não acreditava que tinha sido aprovada.”

Com um ano inteiro de dedicação, ela dobrou sua nota no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) em relação à primeira vez que tinha prestado a prova, em 2013, ainda como treineira. “Eu adorava as aulas de redação. Tanto que consegui passar de 400 pontos para 800 (em uma escala de 1.000 pontos). O tema foi publicidade infantil e eu estava super por dentro, porque tínhamos pesquisado e escrito sobre isso no cursinho”, conta. “Os professores eram estudantes da Universidade Federal do ABC, já perto de concluir o curso. Eu achava eles tão inteligentes que pensava que se tivesse que ser assim para passar nunca ia conseguir. Mas estou aqui.”

Desde 2010, o Enem tem sido a principal forma de ingresso nas universidades federais e nos institutos tecnológicos, por meio do Sistema de Seleção Unificada (Sisu), uma estratégia do Ministério da Educação para democratizar o acesso à educação superior pública. Metade das vagas é reservada, desde 2012, para estudantes que cursaram o ensino médio integralmente em escola pública, pela Lei de Cotas.

Atualmente, 40% dos estudantes das universidades federais e 46% dos alunos dos institutos federais de tecnologia são oriundos da escola pública. Só entre 2013 e 2014, o total de vagas nas universidades federais cresceu 9,8%, sendo que a oferta para cotistas cresceu 38%, de acordo com o Ministério da Educação. “Decidi focar só no Enem porque me daria oportunidade em todas as federais. Fui a primeira da minha família a estudar em uma universidade pública. Era um grande sonho. Tenho uma prima que também conseguiu estudar Pedagogia com bolsa integral do Prouni. É um orgulho para a família”, conta Jaqueline.

Filha do meio de uma auxiliar de limpeza e de um autônomo, e com renda familiar de R$ 1.000, Jaqueline trabalhou durante um ano segurando placas de anúncios de empreendimentos imobiliários nas ruas da cidade para ajudar a mãe nos gastos com seu estudo. “Trabalhava de sábado e domingo e ganhava R$ 35 por dia, mas era muito ruim: tinha que ficar oito horas no sol, em lugares que muitas vezes não tinha nenhum comércio perto. Não dava nem para ir ao banheiro. O bom era que eu usava esse tempo para ler e estudar”, conta a fã de Sherlock Holmes e de livros sobre a Segunda Guerra Mundial.

Desde que foi aprovada, a vida mudou totalmente: ela saiu da casa dos pais e passou a viver um quarto em república estudantil com mais 15 meninas em Guarulhos, onde está localizado o campus da Unifesp. “Minha mãe ficou muito feliz, mas depois de receber a notícia começou a calcular o quanto gastaríamos. Hoje, ela tem gasto mais comigo do que com toda a família.” Jaqueline aguarda uma bolsa nos programas de permanência estudantil do governo federal, que oferecem auxílio para moradia, alimentação e transporte. “Tudo tem sido muito grande. Se esse não for o maior momento de aprendizagem da minha vida não sei qual mais será.”

As mudanças também vêm de dentro: “Tive só um mês de aulas, mas já comecei a ler os livros que os professores indicaram para o semestre. Eu leio e digo: caramba! Isso se encaixa na minha vida! Eu me reconheço aqui. Já me vejo, daqui a quatro anos, uma socióloga muito crítica”, diz Jaqueline, que demonstra um interesse especial pela área de antropologia. “O pessoal aqui é muito diferente dos meus amigos da escola. Eles têm a cabeça aberta para muitas coisas, mas para outras não. Às vezes, são um pouco distantes da minha realidade. Mas também é um processo sociológico: o estranhamento e depois a compreensão”, analisa a futura cientista social.

Publicado originalmente no Brasil/247