Comunicação: Eu e o outro

Comunicação: Eu e o outro

social-media-communicationPor Maria Lúcia Dahl

As pessoas perderam a capacidade de se comunicar ao vivo e a cores nessa época da comunicação. Por isso só encontram os amigos se os celulares forem junto. Ninguem mais quer saber de papo, que agora é transmitido por escrito através dos aparelhos, embora várias pessoas se reúnam lado á lado numa mesa de bar. Mudos. Riem, se divertem, olhando as mensagens, mas falar que é bom, nada.

Fotografar os amigos também saiu de moda. O quente é se possuir uma câmera selfie com um pau de selfie que só fotografam você mesmo embora pessoas variadas estejam, praticamente, coladas a você.

Entendo que esse novo costume não surgiu do nada, que existe uma barra pesada nas relações humanas.

Quando o Julio Bressane filmou “Matou a família e foi ao cinema”, tomamos o título, na época, como um deboche, uma piada. Hoje é rara a noite que não se veja no jornal da TV que a mulher matou o marido, o filho matou a mãe,a avó matou os netos e todos foram pro cinema assim como os políticos que vão condenados e na semana seguinte já estão sorrindo

câmeras na rua e dando adeus antes de irem ao cinema ou passearem no carro de algum ladrão fazendo hora pra sessão das dez.

O fato é que hoje em dia foge-se do outro como o diabo da cruz.O outro é a verdadeira ameaça. Real. Não psicológica, como afirmava Sartre: “ o inferno são os outros.”

O outro, agora, é sinônimo de perigo iminente e a gente passa a vida se protegendo do outro, se isolando do outro, sofrendo de uma absurda solidão por causa do outro. Bons tempos aqueles em que minha avó dizia: “Cada ônibus que eu pego é um amigo que eu faço.” Agora as avós se despedem dos netos com lágrimas nos olhos, ao entrar nos ônibus por que esta pode ser sua última viagem.

Claro, é o outro que puxa o revólver pra você, é o outro que te rouba, é o outro que te avilta cobrando impostos extorsivos. O mundo parece que virou um lugar contra o ser humano.
Mas como viver sem o outro, se nem Adão conseguiu isso no paraíso, pedindo a Deus que lhe desse uma companheira?

Já fui assaltada várias vezes mas não vou deixar de gostar do outro, de ter amigos e sair com eles, de preferência, sem celulares .

Quando abri o portão de casa pra uma jovem negra com uma criança nos braços que me pediu comida, chorando, mandei-a esperar, fui lá dentro e voltei com o que ela me pediu. A moça ficou tão espantada que não conseguia agradecer. Olhava pra mim e pra sacola que eu dei pra ela e me perguntava:

“Como? Isso é pra mim?” Impressionada com a idéia de eu ter falado com ela, isto é, com o outro. Contou-me então do marido assassinado numa obra onde trabalhava, em Belfort Roxo, o que forçou-a a vir pedir ajuda na zona sul. Então fiquei pensando como seria bom se eu pudesse dizer: “fica aí com o menino, tem muitos quartos vazios . Mas, claro, isso seria loucura. Então fiquei sozinha, vagando pela casa e ouvindo o menino chorar lá fora, na chuva, pelo simples fato de eu não poder abrir a minha porta pro outro.

Sobre a autora:

Maria Lúcia Dahl, é atriz, escritora e roteirista. Participou de mais de 50 filmes entre os quais – Macunaima, Menino de Engenho, Gente Fina é outra Coisa – 29 peças teatrais destacando-se- Se Correr o Bicho pega se ficar o bicho come – Trair e coçar é só começar- O Avarento. Na televisão trabalhou na Rede Globo em cerca de 29 novelas entre as quais – Dancing Days – Anos Dourados – Gabriela e recentemente em – Aquele Beijo. Como cronista escreveu durante 26 anos no Jornal do Brasil e algum tempo no Estado de São Paulo. Escreveu 5 livros sendo 2 de crônicas – O Quebra Cabeça e a Bailarina Agradece-, um romance, Alem da arrebentação, a biografia de Antonio Bivar e a sua autobiografia,- Quem não ouve o seu papai um dia balança e cai. Como redatora escreveu para o Chico Anisio Show.Como roteirista fez recentemente o filme – Vendo ou Alugo – vencedor de mais de 20 premios em festivais no Brasil. – Postado no Correio do Brasil