Para quem o Brasil piorou?

Por Fabio Lau 

Rep/WebO Brasil virou um lugar pior para se morar? Para quem? Quem é que tem sofrido hoje no Brasil o que jamais experimentou em seus anos de vida? A inflação hoje é mais alta e dilacerante do seu poder de compra do que no governo militar? Sarney? Collor? Fernando Henrique Cardoso? Lula?

As questões que levantamos têm um objetivo: o que há de real e manipulador no atual quadro de “indignação popular” crescente no país? Será que os que bradam por uma mudança no comando do país, por vias nada democráticas, de fato pensam no brasileiro que deixou o desemprego, a fome, um país sem médicos, Educação restrita à classe média – especialmente nas universidades?

A cara da oposição neste momento é o PSDB. Os tucanos, que disputaram com Dilma as últimas eleições, estiveram no poder por oito anos ininterruptos. FHC, eleito como um dos criadores do Plano Real, se beneficiou do programa que baixou a inflação. Mas é fato que ele foi o criador do modelo que regulou a inflação? Não. É mentira.

FHC era ministro da Fazenda quando Itamar Franco (PMDB) instituiu o Plano Real. Um mês após o novo plano econômico, Fernando Henrique se desincompatibilizaria do cargo para disputar aPresidência Da República alguns meses depois. Isso é fato. Quem assumiu o plano, portanto, e o conduziu foi Rubens Ricupero. Que sairia do governo por causa de imagens captadas pela TV onde fazia críticas ao governo que representava: ” O que é bom a gente fatura. O que é ruim, esconde”.

A reeleição de FHC, em 1998, foi possível a partir da compra de parlamentares. Receberam propina para votar a favor da emenda que garantiria a recondução do tucano ao Palácio. Isso foi investigado? Não. Mesmo com a confissão de um dos beneficiários da propina, o caso não foi levado ao Judiciário. E um detalhe. O jornalista que levantou a trama disse recentemente: “Não recolhi indícios da compra de votos, mas provas”.

Durante o governo FHC o funcionalismo federal não teve aumento de salários. A inflação foi maior do que em todo o ciclo do PT no poder. E, mais do que isso, 1/4 dos postos de trabalho do funcionalismo foi fechado. Veja os números da inflação:

No primeiro mandato do governo Fernando Henrique, eleito a bordo da nova moeda, o Real, o IPCA foi de 22,4 em 1995, 9,5 em 1996, 5,22 em 1997 e 1,6 em 1998. Média anual: 9,3%.

No segundo mandato, a inflação subiu 8,9 em 1999, 5,9 em 2000, 7,6 em 2001 e 12,5 em 2002. Média anual: 8,6%.

No primeiro mandato do governo Lula, as altas foram de 9,3 em 2003, 7,6 em 2004, 5,6 em 2005 e 3,1 em 2006. Média anual: 6.4%

No segundo mandato do governo Lula, as altas foram de 4,4, 5,9, 4,3 e 5,9. Média anual: 5,1%

No governo Dilma, as altas foram de 6,5 em 2011, 5,8 em 2012, 5,9 em 2013. O último ano do primeiro mandato terminou abaixo do teto da meta: fechou em 6,41%, contra o teto estabelecido pelo governo, de 6,5%. Média do quadriênio: 6,1.

Portanto, em números objetivos, a inflação nos três governos do PT alcançou uma média de 5,8% contra 8,95% no governo FHC. Fato.

Fome

O Brasil saiu do Mapa Mundial da Fome em 2014, segundo relatório global da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO). O órgão internacional considerou dois períodos distintos para analisar a subalimentação no mundo: de 2002 a 2013 e de 1990 a 2014. Segundo os dados analisados, entre 2002 e 2013 (governos Lula e Dilma), caiu em 82% a população de brasileiros em situação de subalimentação. A organização aponta também que, entre 1990 e 2014, o percentual de queda foi de 84,7% (Collor, Itamar, FHC, Lula e Dilma).

O relatório mostra que o Indicador de Prevalência de Subalimentação, medida empregada pela FAO há 50 anos para dimensionar e acompanhar a fome em nível internacional, atingiu no Brasil nível menor que 5%, abaixo do qual a organização considera que um país superou o problema da fome. Avançamos, portanto. A vergonha da fome deixou o Brasil e queremos crer que em definitivo. E isso é fato.

Na Saúde e na Educação, a partir de modelos como o Mais Médicos e Cotas Raciais, instituídos nos governos do PT, o Brasil melhorou. São 50 milhões de brasileiros com acesso a médicos, a maioria estrangeiros, e dos 2% de negros e pardos nas universidades brasileiras entre 1997 e 2003, saltamos para quase 45% da população estudantil. Um avanço extraordinário, conforme avaliam analistas.

O que permanece ruim

Os juros altos, que favorecem bancos, Imposto de Renda elevado, que pune a classe média e os assalariados, e a timidez na reforma agrária são, com certeza, os lances do jogo que depõem contra o PT e estão intrinsecamente ligados à história do país que resiste em abandonar a vocação para ser cruel com os mais pobres.

Outro campo fundamental que continua inalterado diz respeito à mídia. Não há em curso nenhum processo institucional que garanta a distribuição ampla e segura de informações confiáveis quanto esta que você lê aqui em Conexão – baseada em estudos oficiais e pesquisas.

Mas, vendo por aí, dá para entender que há muito mais choramingões nas ruas e varandas do que inspira a realidade nacional. E a arte que postamos na reportagem, lá no alto, em tom de piada, é uma dura realidade que nada tem a ver com o reflexo da nossa sociedade. O Brasil melhorou, é fato. Quem perdeu foram os ladrões. Inclusive políticos.