A mídia saiu do armário para apoiar a manifestação pelo impeachment

Por Mauro Donato

É preciso uma boa dose de ingenuidade, desinformação ou falta de inteligência (ou ainda tudo junto e misturado) para não enxergar a campanha que a velha mídia está embandeirando pelos protestos do próximo dia 15.

Em nenhuma manifestação (e este colunista esteve presente em mais de 60 delas entre 2013 e 2014 das mais variadas pautas e intensidades de relevância – pelos direitos dos professores, contra o genocídio indígena, pelo direito à moradia e até contra o rebaixamento do time da Portuguesa para a segunda divisão) os jornais deram tanto destaque por algo que ainda estaria por acontecer.

Qualquer convocação para uma manifestação seja via Facebook, Whatssap, o que seja, sempre é uma incógnita na relação entre a quantidade de adesões que há no evento criado na rede e o que aquilo realmente irá representar na rua. Muitas vezes 200 mil pessoas “confirmaram” sua presença no evento e depois meia dúzia de gatos pingados é que de fato compareceram. Isso ocorre com enorme frequência.

Mas os jornais há várias semanas, diariamente, têm dado como certo que este é um “evento” ao qual se “deve” comparecer. Colunistas, editoriais, reportagens, martelam o tema insistentemente. Ao final das matérias, dá-se ainda o serviço em destaque com data, hora, local, só faltando aconselhamentos do tipo “leve protetor solar e barra de cereal”. Tudo no melhor estilo “dica de programa”.

Basta puxar um pouco pela memória e lembrar que o junho de 2013 é tratado até hoje como uma “surpresa”, certo? Mas estava presente nas redes sociais antes dos chamados. Por que passou batido?

Questões de extrema importância como o nível dos reservatórios e a falta d’água, o cartel do metrô, a sonegação fiscal da Globo e quaisquer outros protestos que sejam organizados (sim, eles ocorrem!) sempre são completamente ignorados. Os jornais nunca dão essa ênfase toda, pelo contrário. Esperam que a manifestação aconteça e depois, talvez, irão informar quantos estavam presentes, invariavelmente subestimando o número. E no máximo será isso que o leitor/espectador terá de informação: ocorreu ontem e havia tantas pessoas. Só.

O governo Dilma está pagando pelo desleixo com que tratou a democratização da mídia. Apanhou muito na campanha por conta disso e iniciou o segundo mandato declarando que essa pauta receberia atenção. Finalmente havia percebido que é de uma desproporção muito grande encarar a grande mídia fortalecida com recursos vindos do próprio governo.

Não deu nem tempo. Está sendo vítima novamente de uma campanha que agora quer derrubá-la ou, no mínimo, como declarou o senador tucano Aloysio Nunes, a intenção é “fazê-la sangrar” até o fim. E isso é claro e límpido. É preciso não querer ver o que está sendo orquestrado de forma tendenciosa. Estão alertando previamente sobre o próximo dia 15 como “o evento do ano” ao qual é “preciso” engajar-se. É uma apologia ao impeachment. Se o leitor não se considera ingênuo, desinformado nem pouco inteligente, deve ao menos admitir que então está vendo sim e concorda.

Chega a ser covardia o que os jornais estão fazendo pois é uma luta desigual. A grande mídia sempre atua na base do quanto pior, melhor (para ela, claro). Esse clima de desgraceira fomentado o tempo todo com a intenção de disseminar uma sensação de que tudo está péssimo, tudo está horrível é uma maneira de manter a massa desinformada e insatisfeita eternamente. Uma massa assim é fácil de ser conduzida.

O que a grande mídia faz é um espelho da indústria farmacêutica. Inventa doenças para que ninguém nunca se sinta 100%. Cria necessidades, demandas, infelicidades e assim vendem seus produtos. Assim gira o capital. E quem está feliz não precisa do supérfluo, não é mesmo? Pedir impeachment é um supérfluo infeliz.

Não vivo no mundo da lua. Sei que o preço dos alimentos disparou. Mas faça um teste e pergunte para algumas dessas pessoas que andam apoiando a ideia do impeachment e que dizem que irão às ruas no dia 15. Você ouvirá coisas como roubalheira, corrupção, dólar, Petrobras… e todo e qualquer discurso ouvido na TV será prontamente repetido.

Não é uma manifestação legítima. É gerada por uma sensação de insatisfação, difusa, confusa, criada por esses meios de comunicação. Não me espantarei se uma miríade de cartazes engraçadinhos e desconexos reaparecerem como naquele 17 de junho do Largo da Batata. “Saímos do Orkut” foi um dos melhores que vi naquele dia. Acho que continua valendo.

Sobre o Autor
Mauro Donato é jornalista, escritor e fotógrafo nascido em São Paulo. – Postado originalmente no DCM