Os filósofos explicam por que rir da miséria humana é melhor que chorar por causa dela

Os filósofos explicam por que rir da miséria humana é melhor que chorar por causa dela

Uma crônica de Fábio Hernandes

garota na relvaAcordei meio filosófico. E quando isso acontece pareço um livro de citações ou um manual vulgar de auto-ajuda. Recomendo aos mentalmente sãos que parem a leitura por aqui. Aos demais, aos loucos o suficiente para ignorar a advertência, segue desde já um sincero pedido de desculpa.

Meu ponto de partida é a atitude oposta de dois grandes filósofos gregos, Heráclito e Demócrito, diante da miséria humana, Heráclito chorava. Demócrito ria. No correr dos dias nós vemos uma série infinita de absurdos e de patifarias. Alguém a quem você fez bem retribui com ódio. A inveja parece onipresente. A mesquinharia, também. Você tropeça e percebe a alegria maldisfarçada dos inimigos e até de amigos. (Palavras do frasista francês Rochefoucauld: sempre encontramos uma razão de alegria na desgraça de nossos inimigos.) As pessoas que têm poder são quase sempre sensíveis à adulação. A frivolidade triunfa. A hipocrisia é dominante. As decepções se acumulam. Até seu cachorro se mostrou bem menos confiável do que você imaginava. Se não bastasse tudo, sua sogra não sai de sua casa.

Em suma, a vida como ela é. Você pode chorar. E dedicar o resto de seus dias a movimentos que alternam gemidos de auto-piedade e consumo de antidepresivos de última geração. Ou então você pode rir.

A alternativa dois é a melhor.

A oposição entre Heráclito e Demócrito foi objeto de estudo de dois filósofos distantes séculos um do outro: Sêneca e Montaigne. Cada um a seu estilo, ambos optaram por Demócrito e sugeriram o mesmo a quem acaso os lessem. Uma só situação provoca riso ou choro de acordo com a disposição de espirito de quem a enfrenta. Mesmo Schopenhauer, o grande filósofo do pessimismo, o gênio soturno que disse que a pior coisa do mundo é nascer, reconhece sabedoria na jovialidade. “Acima de tudo, o que nos torna mais imediatamente felizes é a jovialidade do ânimo, pois essa boa qualidade recompensa a si mesma de modo instantâneo” escreveu ele. “Quem é alegre tem sempre razão para ser alegre. E a razão é exatamente esta, a de ser alegre. Nada pode substituir tão perfeitamente qualquer outro bem quanto essa qualidade, enquanto ela mesma não é substituível por nada.”

Bem que avisei que eu ia parecer uma fábrica de citações. Ainda é tempo de sair desse ônibus que estou conduzindo.

Sobre o Autor
O cubano Fabio Hernandez é, em sua autodefinição, um “escritor barato”.

 

Uma antipatia gratuita

Uma antipatia gratuita

nao-vou-com-a-sua-caraPor Maria Lúcia Dahl

Não adiantava ela ser uma santa. Meu tio-avô detestava a Beth, melhor amiga de sua mulher Geni.
-Que foi que ela te fez, criatura?
-Não gosto e pronto, acabou-se.
Tudo terminava em discussão à mesa quando a Beth vinha almoçar. Foi assim, contou minha tia-avó, quando o Barreto Pinto,deputado cassado do PTB, apareceu de cueca, paletó e gravata borboleta, em 1946, através de um golpe da revista “O Cruzeiro”.
-Pouca vergonha comentou a Beth, Não se tem mais respeito.
Já tio Eugênio achava a única reportagem interessante da revista. Outra vez se desentenderam por causa da música Chiquita Bacana. “Não usava vestido, não usava calção?”
Preocupava-se a Beth com as crianças enquanto tio Eugenio nos ensinava a letra: “ se veste com uma casca de banana nanica…”
Beth era devota de S. Judas Tadeu e frequentava diariamente a sua igreja.
-Como é que ele aguenta, Geni? Só sendo santo mesmo.
Beth fazia tudo pra agradar: pé de moleque, doce de laranja, biscoito de nata. Qual!…Tio Eugenio não comia. Detestava a Beth.
-Tambem é filha de Deus, criatura!
-Com aquele nariz, Geni?
Um dia faltou parceiro pra jogar Pif-Paf e tia Geni chamou a Beth pra tapar buraco.
-Chamasse o Cosme.
-Onde já se viu chamar o porteiro pra jogar com as visitas?
-Melhor que aturar a Beth.
No Natal ela levou um bolo de nozes e tio Eugenio não resistiu trancou-se no banheiro e comeu até passar mal.
-Por que é que ele me odeia, Geni?
-Qual nada, criatura! No fundo, no fundo, ele adora você!
Quando a secretária do tio faltou, Beth se ofereceu pra bater à máquina, mas tio Eugenio mandou-a pra casa, “Bateu espaço dois, eu queria três!
A viagem à Caxambú foi um desastre. Depois que o garçon Fioravante morreu de repente, tio Eugenio foi bem cedinho assustar a Beth na Fonte de São Pedro: “Avante! Avante! Quem fala aqui é o Fiô.” Murmurou ele no ouvido de Beth que desse dia em diante passou a beber água da fonte sulfurosa que tanto detestava. Depois mandou um bilhete pro coronel reformado do quarto 505 em nome da Beth: “estou irremediávelmente apaixonada por você.” O que fez o militar mudar de hotel com a família.
Meses depois tio Eugenio ficou doente. Problema de coração. Mandou chamar a Beth. “Arrependeu-se” pensou Geni, comovida.
Beth chegou nervosa, de preto. Apesar de tudo, nunca guardara rancor. Tia Geni levou-a ao quarto do marido, deixando-os a sós.
-Chega mais perto. Pediu o moribundo. Beth se aproximou, chorosa. “Agora senta aqui ao meu lado.” Beth obedeceu. “Se aproxima mais.”
Quando a Beth chegou o rosto bem perto do dele, tio Eugenio levantou a cabeça e deu-lhe uma dentada no nariz, sussurrando: “nariguda!” , antes de cair duro pra traz.

Maria Lúcia Dahl, atriz, escritora e roteirista. Participou de mais de 50 filmes entre os quais – Macunaima, Menino de Engenho, Gente Fina é outra Coisa – 29 peças teatrais destacando-se- Se Correr o Bicho pega se ficar o bicho come – Trair e coçar é só começar- O Avarento. Na televisão trabalhou na Rede Globo em cerca de 29 novelas entre as quais – Dancing Days – Anos Dourados – Gabriela e recentemente em – Aquele Beijo. Como cronista escreveu durante 26 anos no Jornal do Brasil e algum tempo no Estado de São Paulo. Escreveu 5 livros sendo 2 de crônicas – O Quebra Cabeça e a Bailarina Agradece-, um romance, Alem da arrebentação, a biografia de Antonio Bivar e a sua autobiografia,- Quem não ouve o seu papai um dia balança e cai. Como redatora escreveu para o Chico Anisio Show.Como roteirista fez recentemente o filme – Vendo ou Alugo – vencedor de mais de 20 premios em festivais no Brasil.

 Da redação com imagem de Amorim Sangue Novo