Uma antipatia gratuita

Uma antipatia gratuita

nao-vou-com-a-sua-caraPor Maria Lúcia Dahl

Não adiantava ela ser uma santa. Meu tio-avô detestava a Beth, melhor amiga de sua mulher Geni.
-Que foi que ela te fez, criatura?
-Não gosto e pronto, acabou-se.
Tudo terminava em discussão à mesa quando a Beth vinha almoçar. Foi assim, contou minha tia-avó, quando o Barreto Pinto,deputado cassado do PTB, apareceu de cueca, paletó e gravata borboleta, em 1946, através de um golpe da revista “O Cruzeiro”.
-Pouca vergonha comentou a Beth, Não se tem mais respeito.
Já tio Eugênio achava a única reportagem interessante da revista. Outra vez se desentenderam por causa da música Chiquita Bacana. “Não usava vestido, não usava calção?”
Preocupava-se a Beth com as crianças enquanto tio Eugenio nos ensinava a letra: “ se veste com uma casca de banana nanica…”
Beth era devota de S. Judas Tadeu e frequentava diariamente a sua igreja.
-Como é que ele aguenta, Geni? Só sendo santo mesmo.
Beth fazia tudo pra agradar: pé de moleque, doce de laranja, biscoito de nata. Qual!…Tio Eugenio não comia. Detestava a Beth.
-Tambem é filha de Deus, criatura!
-Com aquele nariz, Geni?
Um dia faltou parceiro pra jogar Pif-Paf e tia Geni chamou a Beth pra tapar buraco.
-Chamasse o Cosme.
-Onde já se viu chamar o porteiro pra jogar com as visitas?
-Melhor que aturar a Beth.
No Natal ela levou um bolo de nozes e tio Eugenio não resistiu trancou-se no banheiro e comeu até passar mal.
-Por que é que ele me odeia, Geni?
-Qual nada, criatura! No fundo, no fundo, ele adora você!
Quando a secretária do tio faltou, Beth se ofereceu pra bater à máquina, mas tio Eugenio mandou-a pra casa, “Bateu espaço dois, eu queria três!
A viagem à Caxambú foi um desastre. Depois que o garçon Fioravante morreu de repente, tio Eugenio foi bem cedinho assustar a Beth na Fonte de São Pedro: “Avante! Avante! Quem fala aqui é o Fiô.” Murmurou ele no ouvido de Beth que desse dia em diante passou a beber água da fonte sulfurosa que tanto detestava. Depois mandou um bilhete pro coronel reformado do quarto 505 em nome da Beth: “estou irremediávelmente apaixonada por você.” O que fez o militar mudar de hotel com a família.
Meses depois tio Eugenio ficou doente. Problema de coração. Mandou chamar a Beth. “Arrependeu-se” pensou Geni, comovida.
Beth chegou nervosa, de preto. Apesar de tudo, nunca guardara rancor. Tia Geni levou-a ao quarto do marido, deixando-os a sós.
-Chega mais perto. Pediu o moribundo. Beth se aproximou, chorosa. “Agora senta aqui ao meu lado.” Beth obedeceu. “Se aproxima mais.”
Quando a Beth chegou o rosto bem perto do dele, tio Eugenio levantou a cabeça e deu-lhe uma dentada no nariz, sussurrando: “nariguda!” , antes de cair duro pra traz.

Maria Lúcia Dahl, atriz, escritora e roteirista. Participou de mais de 50 filmes entre os quais – Macunaima, Menino de Engenho, Gente Fina é outra Coisa – 29 peças teatrais destacando-se- Se Correr o Bicho pega se ficar o bicho come – Trair e coçar é só começar- O Avarento. Na televisão trabalhou na Rede Globo em cerca de 29 novelas entre as quais – Dancing Days – Anos Dourados – Gabriela e recentemente em – Aquele Beijo. Como cronista escreveu durante 26 anos no Jornal do Brasil e algum tempo no Estado de São Paulo. Escreveu 5 livros sendo 2 de crônicas – O Quebra Cabeça e a Bailarina Agradece-, um romance, Alem da arrebentação, a biografia de Antonio Bivar e a sua autobiografia,- Quem não ouve o seu papai um dia balança e cai. Como redatora escreveu para o Chico Anisio Show.Como roteirista fez recentemente o filme – Vendo ou Alugo – vencedor de mais de 20 premios em festivais no Brasil.

 Da redação com imagem de Amorim Sangue Novo

Hoje é o Dia Nacional da Defensoria Pública

Dia Nacional da Defensoria Pública é lembrado no Plenário do STF

Por Amorim Sangue Novo

Neste dia, não sei se há de comemorar alguma coisa, posto que a justiça cada vez se torna mais falha, devido Leis que impedem o melhor desempenho daqueles que as representam e a elas devem cumprir e assim, como Rui Barbosa, “ao lado da vergonha de mim, tenho pena, tanta pena de ti, povo brasileiro”.

No início da sessão plenária desta quarta-feira (19), do Supremo Tribunal Federal (STF), o decano da Suprema Corte, ministro Celso de Mello, lembrou que nesta data se comemora o Dia Nacional da Defensoria Pública. Trata-se, segundo ele, de uma entidade que, em cumprimento do disposto no artigo 5º, inciso LXXIV, da Constituição Federal (CF), assegura às camadas mais necessitadas da população o direito à orientação jurídica e à assistência judiciária gratuita.

O ministro Celso de Mello lembrou que, em 19 de maio de 2002, foi promulgada a Lei 10.448, que criou a data, escolhida em homenagem a Santo Ivo, doutor em Teologia e Direito, defensor dos pobres e necessitados, falecido em 19 de maio de 1303.

Reflexões

O ministro Celso de Mello observou que a data traz à baila diversas reflexões: a primeira delas, de que a CF assegura aos pobres e necessitados o direito à assistência judiciária gratuita e, a segunda, que cabe ao Poder Público dar o devido aparelhamento às defensorias públicas, “valioso instrumento de concretização do direito dos necessitados”, tanto no nível federal quanto no dos estados.

O ministro lamentou que, em muitos casos, o Poder Público ainda deixe de cumprir o dever de conferir expressão real ao direito dos pobres e necessitados à orientação jurídica e à assistência judiciária gratuita, o que ele qualificou como “situação inaceitável”.

Ele lembrou, a propósito, que o Supremo “tem tomado decisões no sentido das justas reivindicações da sociedade”. Segundo o ministro, “é necessário dar efetividade às regras que impõem ao Poder Público o aparelhamento adequado das Defensorias Públicas para assegurar proteção jurisdicional aos que a ela têm direito”, pois se trata de “garantes dos desamparados que anseiam pela justa realização de seus direitos”.

Desprestígio

O ministro Marco Aurélio, associando-se às manifestações do ministro Celso de Mello, disse que, passados 21 anos da promulgação da Constituição Federal, denominada “Carta Cidadã” pelo então presidente da Câmara, deputados Ulisses Guimarães (PMDB-SP), ao promulgá-la, as Defensorias Públicas ainda não estão devidamente estruturadas nos estados.

Ele lembrou que, no estado de São Paulo, antes da criação da Defensoria Pública, havia a Procuradoria do Estado que assumia parcialmente o papel de defensor dos necessitados no âmbito judicial. Ele lembrou também que, quando do advento da Defensoria, 80 dentre os 250 procuradores do estado optaram por continuar prestando trabalho de assistência judiciária gratuita.

Entretanto, segundo o ministro, hoje eles “estão apenados”, pois recebem salário 50% inferior ao dos procuradores, o que ele atribuiu ao “menosprezo” do maior estado do país por esse trabalho. “É tempo de resgatar a sociedade”, afirmou o ministro Marco Aurélio. “É dever do Estado a prestação jurídica e judiciária aos menos afortunados”.

Ele recordou que, certa vez, ao participar da posse de defensores públicos, confrontando o Ministério Público com a Defensoria Pública, disse que ao Estado acusador ele preferia o Estado defensor. “É mais fácil atacar que defender”, arrematou.

O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, também se associou às manifestações em prol das Defensorias Públicas, observando ser o serviço “absolutamente essencial à prestação jurisdicional do Estado”.

Também o ministro Carlos Ayres Britto, vice-presidente da Suprema Corte no exercício da Presidência, afirmou que “a Defensoria Pública se revela, cada vez mais, como entidade do Estado a serviço da humanização do direito, da defesa dos necessitados”.

Da redação com informação é do STF