Quase mandei meu patrão tomar naquele lugar – Um relato que emociona

negra chorandoPor Amorim Sangue Novo

Sou negra, 53 anos, baixinha, com pouca instrução, mas muita educação e sentimentos.

Tenho a pele ressecada porque ganho pouco e não posso gastar com cremes e qualquer outra coisa considerada superficial, pois também tomo conta de minha mãe com 79 anos e que está sempre adoentada.

Meu rosto é marcado pelo sofrimento e a dor de ter perdido marido e único filho em um acidente de carro que desenvolvia alta velocidade e atropelou os dois e que até hoje não se sabe quem foi o causador, dizem que o motorista estava bêbado, mas sabe como é, mesmo se a policia pegasse ele, ia ter que soltar por que as leis deste país são sempre para proteger políticos e quem tem dinheiro.

Não tenho carro e nem posso comprar uma moto, mas tenho uma bicicleta velha que me leva até o serviço onde trabalho das 07:30 às 18 horas.

Das onze as treze saio para o almoço, um almoço que na maioria das vezes é sem um pedaço de carne ou até um ovo, que esquento e levo para a minha mãe na cama. Coitada, mal pode andar e às vezes faz xixi na cama.

Na volta do trabalho aproveito para lavar as roupas e fazer comida para o dia seguinte. Não assisto novelas porque só tem intrigas, mas vejo muitos jornais.

Aos sábados não trabalho, mas faço horas extras até onze para conseguir uns trocados a mais. À tarde limpo a casa e tomo outros cuidados com a limpeza, até com medo de minha mãe e eu pegarmos dengue. Aos domingos faço almoço e passo roupas à tarde e descanso um pouco pra continuar tudo outra vez.

Segunda volto para o trabalho, onde ganho, com horas extras, mais ou menos mil reais por mês que com desconto fica em novecentos. Com ele pago aluguel em um quarto, sala e cozinha, de 350 reais (graças a Deus o dono disse que sou pontual e não ia aumentar este ano), com o restante pago imposto, luz, água e vez em quando coloco crédito no celular que está mais pra “pai de santo”, compro remédios pra minha mãe e às vezes para mim, porque a maioria deles não encontro no posto de saúde, onde deveriam entregar gratuitamente. Gratuitamente não, pois já pago por eles antecipadamente através de impostos. Impostos estes que faz com que os políticos vivam bem, enquanto a gente fica nesta agonia.

Esta última sexta-feira, dia 17/04/15, pedi pra meu patrão pra sair mais cedo, pois tinha que levar minha mãe pra marcar consulta no posto de saúde do bairro em que moro em uma cidade da Nova Alta Paulista. Como sei que o posto fecha as quatro, saí três e meia e meu patrão disse que eu não precisava voltar (ainda bem que ele é legal comigo). Peguei a bicicleta e rodei por onze quarteirões que separam minha casa do trabalho, coloquei a roupa na minha mãe rapidamente e, com ela, meio mancando, apoiada em meus ombros, cheguei ao posto as 15 e 51, o posto já estava fechado e as pessoas saindo. Perguntei pra uma senhora que estava saindo se o posto já estava fechado ela disse que sim, perguntei se o horário era até as quatro e ela me ignorou entrou no carro.

Comecei a caminhar no sentido de volta para a minha casa e chegou um de carro e deve ter perguntado a mesma coisa e ela respondeu alguma coisa, saindo logo em seguida em alta velocidade por cima da calçada.

Acho que ele filmou ou fotografou o carro saindo e depois soube que ele filmou o posto fechado fora de hora. Dizem que logo depois chegou uma senhora, também de carro e perguntou para ele se o posto já estava fechado. Dizem ainda que ele foi ao posto central se queixar para o diretor de saúde, não sei se é verdade, mas tomara que tenha ido mesmo, por que para a gente que é pobre as portas se fecham sempre.

Continuando meu calvário: Cheguei em casa com aquele calor danado, dei uma água pra minha mãe, tomei um banho rápido e, ainda com os cabelos molhados, resolvi voltar para o trabalho.

Meu patrão voltou a dizer que eu não precisava ter voltado, mas quando me viu com os cabelos molhados perguntou se eu tinha levado minha mãe ao médico ou tinha ido ao motel.

Quase mandei meu patrão tomar naquele lugar, coitado. Ele percebeu que não gostei e disse que estava brincando, pois percebeu que eu estava nervosa e queria me acalmar. Eu disse que foi uma brincadeira besta e ele alisou meus cabelos ainda úmidos.

Não era pra estar nervosa? Acho que qualquer ficaria? Principalmente ao saber que eles trabalham somente até as quatro e que na segunda vai ser ponto facultativo e eles vão ficar em casa “de boa”.

Desculpem o desabafo. Agora já estou mais calma e até cantando:

Vou levando a vi i da e a vida me levan an do. Nunca tive preconceito…

Nota da redação:
Tirando a parte que envolve o caso do fechamento fora de hora do posto de saúde, a foto, o vídeo e chegada da senhora ao posto, esta estória é fictícia, mas poderia ter acontecido com você.
A intenção é sensibilizar políticos e funcionários para que cumpram seus papéis de prestadores de serviços ao público de forma digna e respeitosa.
Compartilhe, faça chegar a todos os seus conhecidos, servidores, prefeitos, governadores e a presidenta

Foto ilustrativa retirada do Google

Sobre Amorim Sangue Novo

Amorim Sangue Novo, é jornalista--Mtb/SP 59858, contador-CRC/SP 842.156 e especialista em hardware (Desenvolvedor Microsoft). Foi colunista no jornal interno da Lion/Caterpillar, criou e foi redator chefe do jornal interno da Adubos Vianna e é Ex-Diretor de Trânsito na cidade de Panorama. Diretor na Amorim Informática e Jornalismo. atua como editor dos sites Jornal Digital Panô City -www.panocity.com.br- e Sem medo da verdade -www.semmedodaverdade.com.br- e mantém páginas em diversos outros sites e blogs.
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