“Fui preso sob suspeita de roubar meu próprio carro”

roubar-o-proprio-carropara Era 19h de segunda-feira, dia 30/03, quando cheguei à Faculdade de Políticas Públicas da Universidade Estadual de Minas Gerais, onde sou aluno. Ao trancar o meu carro, fui abordado por uma viatura da PM. “O que você está fazendo aí?”. Respondi que era trabalhador.

por Pedro Afonso no UMG enviado Luh Souza postado Portal Geledés

Um sargento e um cabo, ambos da 124a. cia, do 22o BPM, saíram com armas em punho: “mão na cabeça, vagabundo, e cala a sua boca”“Conheço meus direitos, não podem me abordar dessa forma e já vou fazer uma representação contra vocês na corregedoria”, argumentei. Foi o suficiente para que a truculência aumentasse. Com violência, me algemaram. Em minha volta, colegas, professores e vizinhos começaram a protestar.

Senti medo, vergonha e indignação.

As pessoas que me defendiam também eram ameaçadas e coagidas a não registrar o que estava ocorrendo. Me jogaram no carro.


Ato-na-FaPP-IIPedro Afonso (à direita) em evento na UEMG.

Dentro da viatura, argumentei que eles deveriam ter averiguado se o carro era ou não meu, uma vez que a acusação era que eu estava roubando o veículo. Decidiram voltar. Exigi que houvessem testemunhas, com medo de que plantassem alguma coisa no meu carro.

Neste momento, já se formava um grupo significativo em torno da ação e os policiais pediram reforço de outra viatura. As ameaças de prender a quem se opusesse aumentavam. O tempo inteiro eu estava algemado, ainda que em nenhum momento tinha resistido fisicamente à prisão. Queriam me humilhar, constranger. Conseguiram.

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Disseram aos meus amigos que me levariam para a delegacia da rua Pouso Alegre, mas me levaram para uma delegacia no Coração Eucarístico. Lá, um tenente apareceu e tirou uma foto minha em seu celular.

“Essa é para meu registro pessoal”, ele disse em tom ameaçador. No boletim de ocorrência, fui acusado de desacato à autoridade, desobediência e resistência. Tentaram sair com a minha mochila da delegacia. Queriam revistá-la, novamente, longe de mim.

Quando estava na viatura, ouvi do sargento: “você vai pagar umas cestas básicas para aprender o que é polícia”. No momento, me calei.

Agora, respondo:
Eu, como a maioria dos negros e negras deste país, sei muito bem o que é polícia. Fui preso, constrangido, humilhado, machucado porque sou negro. Porque, sendo negro, ousei ter um carro, dirigi-lo e me recusar a pedir desculpas por isso.

Porque, sendo negro, me recusei a ser suspeito, a tomar um esculacho sem protestar. Eu tenho possibilidade de vir aqui, de reverberar essa violência, de ter os docentes da minha faculdade posicionando-se a meu favor, de ter o apoio da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogado do Brasil.

A grande maioria dos jovens negros deste país, negros, pobres e periféricos, pouco podem fazer contra a violação sistemática de seus corpos, integridade e dignidade. Ainda assim, somos irmãos de cor e sabemos, muito bem, desde muito cedo, da pior maneira possível, o que é polícia.

Sobre Amorim Sangue Novo

Amorim Sangue Novo, é jornalista--Mtb/SP 59858, contador-CRC/SP 842.156 e especialista em hardware (Desenvolvedor Microsoft). Foi colunista no jornal interno da Lion/Caterpillar, criou e foi redator chefe do jornal interno da Adubos Vianna e é Ex-Diretor de Trânsito na cidade de Panorama. Diretor na Amorim Informática e Jornalismo. atua como editor dos sites Jornal Digital Panô City -www.panocity.com.br- e Sem medo da verdade -www.semmedodaverdade.com.br- e mantém páginas em diversos outros sites e blogs.
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